Bienvenido a Cuba

 
Nova viagem 07/30/2008
 

O aviso:

a mais nova viagem começou.

Detalhes na volta.

 
 

Foi durante o primeiro passeio que sentimos como seria o resto da viagem.  Tomamos refresco (igual ao do Chaves) e uma torta que só não era mais doce porque não dava. Aliás, ainda tento me lembrar o que não era doce naquela casa cuja janela era a abertura para a 'lojinha'. Ah sim, o pan con croqueta que a Vanessa tá me devendo.

Caminhar pelas ruas com poças de água, com velhos jogando dominó nas esquinas e crianças com o uniforme do partido jovem comunista caminhando calmamente nas calles foi tão impactante quanto a quantidade de itens que encontramos em uma loja que entramos para comprar água (sim, seguimos todos os conselhos de não tomar a água da torneira). A mercadoria era muito escassa e diversidade não era um conceito conhecido.

Assustadas com os preços fomos embora com apenas um suco e uma água. No caminho, os inúmeros 'psi psi psi' estava nos enlouquecendo. Pra gente aquela onomatopéia só servia para chamar os gatos e não para tentar chamar atenção das garotas que passavam na rua.

Os prédios antigos misturados com um cheiro doce faziam a mais completa fotografia poética. Estar ali era um sonho e entender que tínhamos que começar a colocar a mão na massa era quase impossível. O pôr-do-sol logo chegou e tivemos que nos apressar para voltar para casa. O medo do desconhecido falou muito mais alto e o cansaço de tantas horas de vôo era evidente.

Mas a vontade de ter mais e de ver mais não diminuiu, queríamos viver cada segundo da nossa estadia ali e dormir naquele momento ainda era uma perda de tempo. Foi aí que Dammy deu a idéia:o canhonaço. O tradicional evento noturno voltado para os turistas.

 
As casas 07/17/2008
 

De malas nas mãos, sorrisos amarelos e adrenalina correndo louca, estávamos quase atravessando a porta que faria com que pisássemos pra primeira vez em Havana. A tão sonhada cidade...

Cruzar aquele espaço rendeu algumas risadas e boas recordações, já que encontrar uma cubana segurando uma plaquinha com seu nome não tem preço. Nos primeiros 2 minutos ela aparentou ser uma pessoa bacana, falante e até mesmo simpática. Ledo engano.

No caminho para sua casa ficou quieta, mas tudo bem, já que estávamos realmente preocupadas com a visão que tínhamos. A falta de congestionamento e a grande quantidade de pessoas nos pontos de ônibus foi crucial. Entretanto, nada mais chamou a atenção quanto os outdoors. Explícitas declarações patriotas, orgulhosas de toda a sua história e tradição nos acompanharam até o centro de Havana.

Centro. Primeira parada: loja de câmbio. Em um tom quase grosseiro o segurança alertou que a entrada seria feita individualmente. A confiança de pessoas com dinheiro se mostrou inexistente.

Segunda parada: casa de Marvelis, a tal cubana antagonismo total. Paramos para ela avisar que cada ligação feita para o Brasil teríamos que desembolsar 1 dólar (e acredito que todo mundo sabe que dinheiro não foi o forte de nenhuma das aventureiras) e, pior, que nem ficaríamos lá.

"Ferrou", foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. A oferta de água, suco ou qualquer outra coisa se mostrou absurdamente ruim, já que estava preocupada demais pensando na nossa segurança. Marvelis foi indicada por um jornalista brasileiro e agora ela havia apenas informado que não tinha espaço em sua casa. Tá, ok. Seguimos adiante:

Terceira parada: casa do Lázaro. A sala foi assustadora mas o forte cheiro doce de limpeza foi o mais marcante. A sala repleta de adornos, inclusive uma estátua de San Lazaro, assustava. A ostentação daquela família era absurda. A porta da sala como as janelas eram protegidos por um plástico preto, talvez para ninguém ficar contemplando a disparidade da limpeza e enfeite ali presentes.

Conhecemos o quarto. Limpo, com ar-condicionado, armário, televisão, banheiro e, pasme, no corredor tinha até uma cozinha. O lugar era espetacular, principalmente no último andar que era todo aberto e a visão era esplendorosa.

Malas jogadas num canto do quarto, porta trancada, dinheiro no bolsa e cara e coragem, descemos para tentar um diálogo com Dammy, a esposa de Lázaro. Foi ela quem nos alertou sobre a possibilidade de usarmos a cozinha para não gastarmos tanto com comida, foi ela quem tentou abaixar o preço da nossa diária, foi ela quem sempre foi doce conosco, foi ela a cubana mais bem tratada e bonita que eu vi.

Depois de algumas dicas, o passeio.

"Lazaro, vamos a salir. volvemos más tarde, ok?"


 
 

As pessoas andando rápido sem muito olhar para os lados denunciava que poucos eram os turistas de primeira viagem naquele corredor. O cheiro peculiar e seco, a falta de lojinhas no aeroporto e de qualquer adorno nas paredes
mostrava que seriam dias de simplicidade.

As malas demoraram muito para aparecer na esteira e o nervosismo conseguia apertar ainda mais. Os policiais com seus cachorros num canto da sala denunciava que entrar naquele país seria muito difícil se portássemos algo que não os agradassem.

Duas pesadas malas (agradeço a quem teve a brilhante idéia de colocar rodinhas nessas malas de viagem) e um espanhol patético nos acompanharam ao guiche. Cubano mal encarado não gostou do meu inglês. Perguntou o que eu fazia ali, quanto tempo ficaria e até onde me hospedaria. Perguntas freqüentes mas assustadoras quando somos olhados no fundo dos olhos por quem só quer uma brecha para te brecar.

Foi nessa hora que a vergonha teve que ser esquecida e o portunhol ser aceito como língua oficial.

Foi aí que recebi um sorriso e finalmente o primeiro "Bienvenida a Cuba" sincero.

 
 

O vôo estava marcado para a madrugada mas nenhuma das duas conseguiu fechar os olhos antes de chegar no aeroporto de Guarulhos. Trabalhar no dia da viagem não é para qualquer pessoa, já que a cabeça estava virada para outro assunto, outra hora do dia. O encontro das famílias, do medo e aflição de cada um que se encontrava ali, naquela pequena reunião, se mesclaram e tornaram-se um só.

O momento do embarque foi uma dor e uma alegria. A ansiedade era tanta que comer era um luxo naquele momento. Aliás, só naquele momento. A fome apertou horas antes de chegar ao Panamá. O frio então estava absurdo e o filme que passava naquela televisãozinha não importava.

Horas e horas de espera no aeroporto do Panamá, a dança panamense e o cachorro quente que era mais seco do que qualquer outro alimento. Pão e salsicha. Salchicha e pão. O pior é que até que tava gostoso.

Entrar no avião que nos levaria à Havana foi um sonho magnífico! Mais horas, mais uma refeição de avião: rondeli e sei lá mais o que. Tão saboroso quanto o cachorro quente ou quanto as pizzas cubanas que já serão relatadas.

Ver a ilha mesmo que quilômetros acima da terra foi excepcional. A ansiedade aumentava a cada segundo. O avião pousou e a porta abriu.

O cheiro invadiu aquele pequeno espaço e a primeira sensação foi indescritível. Ar quente e seco nunca foi tão gostoso.

Pegar as malas que demoraram longos minutos para aparecer naquela esteira foi o mais interessante, mas isso fica pra próxima.

 


    Cuba é muito mais do que uma ilha caribenha, é muito mais do que a ilha de Fidel e Raul Castro e, principalmente, é muito mais do que um país nomeado como socialista. Após duas viagens ao pequenino país, Silvia Song tenta relatar um pouco sobre o que viu e o que experimentou em meio àquela cultura. 

    E-mail para contato: song.silvia@gmail.com

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