Bienvenido a Cuba

 
Cadê o ar? 10/28/2008
 

Era quase meia noite quando realmente pisamos em solo cubano. O ar era como eu lembrava. Quente. Tão quente quanto um forte abraço. Tão úmido quanto um beijo, tão constante e amado - pelo menos naquele instante.

As malas quase não cabiam no porta-malas de Javier que ainda transportava um ventilador que seria de grande serventia por muitos dias. Os olhares de 'vocês chegaram!' eram inevitáveis e o carro não ficou quieto por muitos segundos.

"Vocês irão ficar na minha casa porque Janete teve um problema com os canos de sua casa", disse o nosso protetor-mentor-pai cubano e querido amigo. Uma portinha estreita no bairro de Centro Havana revelava um pouco do que estava por vir.

Antes de sairmos do pequeno veículo, o aviso: "façam poucos barulhos e não deixem que a vizinhança as vejam. Isso pode me trazer problemas. Vocês sabem, não é permitida a acomodação de turistas em casa não autorizadas pelo governo", afirmou. Subimos a escada de cimento e corrimão enferrujado quase que correndo até o segundo andar. Javier e Jorge vinham logo atrás, com as pesadas malas.

Quando a porta abriu, um jovem magro, de cabelos castanhos claros nos fitava num misto de curiosidade e vergonha, talvez pela ausência de uma camisa por causa do forte calor.

Depois de inúmeros 'cuál es tu nombre?', 'como?', 'uhn?' conseguimos desvendar: Kaned, esse era o nome do menino que pouco falava e quando o fazia, era num tom muito baixo.

"Qual é a saga desta vez?", questionou Javier sentado numa das cadeiras de palha da sala enquanto bebia um copo de água bem gelado.

"Ah, viemos falar sobre as mudanças que estão acontecendo desde que Raúl está oficialmente no poder", dissemos entusiasmadas.

"Vocês não chegaram cedo demais?", responderam quase que num coro.

...... 

 
 

Após um longo vôo entre Brasil-Panamá, as pernas já não respondiam aos nossos comandos. As pesadas bolsas equipadas com câmeras fotográficas, filmadora, algumas mudas de roupa, comida e livros castigavam ainda mais as costas que teimavam em doer.

O espanhol já tinha que ser praticado, principalmente quando fomos comprar um cartão que fizesse ligações internacionais. Apesar de ser óbvio que não estávamos em Cuba, era bom avisar aqueles que nos esperavam que iríamos atrasar ainda mais boas horas.

Depois de 2 ligações e US$ 5 dólares a menos em nosso bolsos, sentamos um pouco naqueles desconfortáveis bancos de aeroportos. Os olhos teimavam em fechar mas o medo de perder outro avião era muito maior. O saguão agora parecia pequeno demais e as caras lojas não representavam entretenimento algum.

Esperamos, deitamos, levantamos, sentamos, andamos e finalmente o embarque foi feito.

No vôo entre Panamá e Cuba haviam poucos passageiros de forma que pudemos utilizar três assentos ao invés de apenas um. 

Para comemorar a chegada à ilha, comemos uma horrível massa e bebemos um péssimo vinho servido num copo de plástico envolto numa chícara do mesmo material.

Não sei se foi o álcool, se foi o livro que estava lendo ou se foi apenas o cansaço, mas adormeci. Acordei assustada com um aviso do capitão: "Senhores passageiros, estamos sobrevoando o território cubano".



 


    Cuba é muito mais do que uma ilha caribenha, é muito mais do que a ilha de Fidel e Raul Castro e, principalmente, é muito mais do que um país nomeado como socialista. Após duas viagens ao pequenino país, Silvia Song tenta relatar um pouco sobre o que viu e o que experimentou em meio àquela cultura. 

    E-mail para contato: song.silvia@gmail.com

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