Bienvenido a Cuba

 
Alívio 12/01/2008
 

A sensação após cada entrevista era de alívio. Alívio porque o cubano entendeu o espanhol enrolado, alívio porque tínhamos um a menos, alívio porque o alívio era a única sensação que vinha à mente. Sim, não há explicação para algumas sensações.

Desejo de voltar, de refazer algumas coisas mas já não era possível. Nunca foi. A imaginação ia longe e a sensação de estar de volta em casa se dissipava em 2 segundos. Dois segundos após um "Silvia" que mais parecia "Silbia".

O ar era diferente, a umidade era intensa, o calor era absurdo, a correria era permanente e nós, ah nós, não éramos mais as mesmas.

 
Ideal 11/16/2008
 

Cemitério. Engraçado como ele é universal. O conceito, as obras e todo o resto. A sensação de peso, de perda e de castigo é muito forte. Alguma coisa te aprisiona assim que você olha para os grandes portões da entrada e não te deixa virar as costas e ir embora.

Os heróis revolucionários estão ali dentro, você pensa. E a sensação que te preenche é de querer ter conversado, ter tocado e conhecido cada um deles. Não pelas suas ideologias ou coragem mas pelo o que eles lutaram. Um ideal de vida.

Talvez eu não tenha um...você tem?


 
Saudade 11/04/2008
 

Segundos, minutos, horas, dias e, por fim, semanas longe das pessoas que amamos passam de forma lenta, doída e até exaustiva. Ficar sem quem tanto contamos, sem dar o telefonema de ‘boa noite’ ou até mesmo brigar com determinadas pessoas faz falta. Tanta falta que você repensa se a sua decisão – a de ir para longe, mesmo que momentaneamente – foi a correta.

Talvez hoje eu esteja mais emotiva mas eu gostaria que essas “determinadas pessoas” saibam que fizeram falta.

Aliás, quero que saibam que por mais que eu estivesse ocupada pensando nas perguntas dos entrevistados, na fome, na vontade de fazer xixi e como estaria a Olimpíada, eu não fiquei distante por um segundo.

A presença das coisas que não são físicas é constante. Ao menos é assim que eu penso, assim que eu vivo. Ninguém precisa estar com você o tempo todo para provar que está contigo. Aliás, quantas são as vezes que estamos fisicamente, mas que nossa cabeça está longe...longe...longe?

O físico não diz nada. O amor que eu sinto por vocês diz tudo. Ao relembrar todos aqueles sentimentos fico grata por saber que posso contar com parte de ‘vocês’ agora. Aos que não estão por aqui fica a saudade.

 
Cadê o ar? 10/28/2008
 

Era quase meia noite quando realmente pisamos em solo cubano. O ar era como eu lembrava. Quente. Tão quente quanto um forte abraço. Tão úmido quanto um beijo, tão constante e amado - pelo menos naquele instante.

As malas quase não cabiam no porta-malas de Javier que ainda transportava um ventilador que seria de grande serventia por muitos dias. Os olhares de 'vocês chegaram!' eram inevitáveis e o carro não ficou quieto por muitos segundos.

"Vocês irão ficar na minha casa porque Janete teve um problema com os canos de sua casa", disse o nosso protetor-mentor-pai cubano e querido amigo. Uma portinha estreita no bairro de Centro Havana revelava um pouco do que estava por vir.

Antes de sairmos do pequeno veículo, o aviso: "façam poucos barulhos e não deixem que a vizinhança as vejam. Isso pode me trazer problemas. Vocês sabem, não é permitida a acomodação de turistas em casa não autorizadas pelo governo", afirmou. Subimos a escada de cimento e corrimão enferrujado quase que correndo até o segundo andar. Javier e Jorge vinham logo atrás, com as pesadas malas.

Quando a porta abriu, um jovem magro, de cabelos castanhos claros nos fitava num misto de curiosidade e vergonha, talvez pela ausência de uma camisa por causa do forte calor.

Depois de inúmeros 'cuál es tu nombre?', 'como?', 'uhn?' conseguimos desvendar: Kaned, esse era o nome do menino que pouco falava e quando o fazia, era num tom muito baixo.

"Qual é a saga desta vez?", questionou Javier sentado numa das cadeiras de palha da sala enquanto bebia um copo de água bem gelado.

"Ah, viemos falar sobre as mudanças que estão acontecendo desde que Raúl está oficialmente no poder", dissemos entusiasmadas.

"Vocês não chegaram cedo demais?", responderam quase que num coro.

...... 

 
 

Após um longo vôo entre Brasil-Panamá, as pernas já não respondiam aos nossos comandos. As pesadas bolsas equipadas com câmeras fotográficas, filmadora, algumas mudas de roupa, comida e livros castigavam ainda mais as costas que teimavam em doer.

O espanhol já tinha que ser praticado, principalmente quando fomos comprar um cartão que fizesse ligações internacionais. Apesar de ser óbvio que não estávamos em Cuba, era bom avisar aqueles que nos esperavam que iríamos atrasar ainda mais boas horas.

Depois de 2 ligações e US$ 5 dólares a menos em nosso bolsos, sentamos um pouco naqueles desconfortáveis bancos de aeroportos. Os olhos teimavam em fechar mas o medo de perder outro avião era muito maior. O saguão agora parecia pequeno demais e as caras lojas não representavam entretenimento algum.

Esperamos, deitamos, levantamos, sentamos, andamos e finalmente o embarque foi feito.

No vôo entre Panamá e Cuba haviam poucos passageiros de forma que pudemos utilizar três assentos ao invés de apenas um. 

Para comemorar a chegada à ilha, comemos uma horrível massa e bebemos um péssimo vinho servido num copo de plástico envolto numa chícara do mesmo material.

Não sei se foi o álcool, se foi o livro que estava lendo ou se foi apenas o cansaço, mas adormeci. Acordei assustada com um aviso do capitão: "Senhores passageiros, estamos sobrevoando o território cubano".



 
Espera... 08/23/2008
 

Aeroporto por horas. Sim, horas. Façam as contas. Se chegamos em Guarulhos às 3:30 e só fomos embarcar ao 12:00....foram longas 9:30? É. É isso aí. Minha bunda ficou com a marca do carrinho das malas por bastante tempo.

Perdemos o vôo. Com a maior ingenuidade (ou burrice?) do mundo, acreditamos que o avião não iria decolar sem a nossa presença ilustre. É, somos muito importantes e foi justamente por isso que olharam na nossa cara e falaram que o avião iria cair se entrássemos naquele momento.

Adoro pessoas que trabalham com o público e tratam mal qualquer um, ou melhor, tratam mal qualquer um que não sente na classe executiva.

Pais desamparados e filhas ainda piores... mas naquele momento, o aperto que tanto havia me sufocado naquele dia, passou. Mesmo assim, não estava acreditando que teria que pagar uma taxa de US$ 120 para tentar embarcar no próximo vôo. Por mim, aquele avião podia cair mas eu tinha que estar dentro dele.

É. Desespero. A sorte é que passou. As piadas surgiram, a fome apareceu, a bunda doia e o frio estava alucinante.

Horas se passaram, a delegação canadense também e mesmo assim, continuamos sentadinhas na frente do balcão prata, aquele que iria abrigar uma mocinha da Copa com uma lista de espera.

Acho que nunca quis tanto ficar numa fila (que nem existia) e tanto participar de uma lista. Mas enfim, resumindo tudo....o óbvio: embarcamos e o Garrido, querido-coitado cubano que iria nos buscar, ficou desesperado.

 
Nova viagem 07/30/2008
 

O aviso:

a mais nova viagem começou.

Detalhes na volta.

 
 

Foi durante o primeiro passeio que sentimos como seria o resto da viagem.  Tomamos refresco (igual ao do Chaves) e uma torta que só não era mais doce porque não dava. Aliás, ainda tento me lembrar o que não era doce naquela casa cuja janela era a abertura para a 'lojinha'. Ah sim, o pan con croqueta que a Vanessa tá me devendo.

Caminhar pelas ruas com poças de água, com velhos jogando dominó nas esquinas e crianças com o uniforme do partido jovem comunista caminhando calmamente nas calles foi tão impactante quanto a quantidade de itens que encontramos em uma loja que entramos para comprar água (sim, seguimos todos os conselhos de não tomar a água da torneira). A mercadoria era muito escassa e diversidade não era um conceito conhecido.

Assustadas com os preços fomos embora com apenas um suco e uma água. No caminho, os inúmeros 'psi psi psi' estava nos enlouquecendo. Pra gente aquela onomatopéia só servia para chamar os gatos e não para tentar chamar atenção das garotas que passavam na rua.

Os prédios antigos misturados com um cheiro doce faziam a mais completa fotografia poética. Estar ali era um sonho e entender que tínhamos que começar a colocar a mão na massa era quase impossível. O pôr-do-sol logo chegou e tivemos que nos apressar para voltar para casa. O medo do desconhecido falou muito mais alto e o cansaço de tantas horas de vôo era evidente.

Mas a vontade de ter mais e de ver mais não diminuiu, queríamos viver cada segundo da nossa estadia ali e dormir naquele momento ainda era uma perda de tempo. Foi aí que Dammy deu a idéia:o canhonaço. O tradicional evento noturno voltado para os turistas.

 
As casas 07/17/2008
 

De malas nas mãos, sorrisos amarelos e adrenalina correndo louca, estávamos quase atravessando a porta que faria com que pisássemos pra primeira vez em Havana. A tão sonhada cidade...

Cruzar aquele espaço rendeu algumas risadas e boas recordações, já que encontrar uma cubana segurando uma plaquinha com seu nome não tem preço. Nos primeiros 2 minutos ela aparentou ser uma pessoa bacana, falante e até mesmo simpática. Ledo engano.

No caminho para sua casa ficou quieta, mas tudo bem, já que estávamos realmente preocupadas com a visão que tínhamos. A falta de congestionamento e a grande quantidade de pessoas nos pontos de ônibus foi crucial. Entretanto, nada mais chamou a atenção quanto os outdoors. Explícitas declarações patriotas, orgulhosas de toda a sua história e tradição nos acompanharam até o centro de Havana.

Centro. Primeira parada: loja de câmbio. Em um tom quase grosseiro o segurança alertou que a entrada seria feita individualmente. A confiança de pessoas com dinheiro se mostrou inexistente.

Segunda parada: casa de Marvelis, a tal cubana antagonismo total. Paramos para ela avisar que cada ligação feita para o Brasil teríamos que desembolsar 1 dólar (e acredito que todo mundo sabe que dinheiro não foi o forte de nenhuma das aventureiras) e, pior, que nem ficaríamos lá.

"Ferrou", foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. A oferta de água, suco ou qualquer outra coisa se mostrou absurdamente ruim, já que estava preocupada demais pensando na nossa segurança. Marvelis foi indicada por um jornalista brasileiro e agora ela havia apenas informado que não tinha espaço em sua casa. Tá, ok. Seguimos adiante:

Terceira parada: casa do Lázaro. A sala foi assustadora mas o forte cheiro doce de limpeza foi o mais marcante. A sala repleta de adornos, inclusive uma estátua de San Lazaro, assustava. A ostentação daquela família era absurda. A porta da sala como as janelas eram protegidos por um plástico preto, talvez para ninguém ficar contemplando a disparidade da limpeza e enfeite ali presentes.

Conhecemos o quarto. Limpo, com ar-condicionado, armário, televisão, banheiro e, pasme, no corredor tinha até uma cozinha. O lugar era espetacular, principalmente no último andar que era todo aberto e a visão era esplendorosa.

Malas jogadas num canto do quarto, porta trancada, dinheiro no bolsa e cara e coragem, descemos para tentar um diálogo com Dammy, a esposa de Lázaro. Foi ela quem nos alertou sobre a possibilidade de usarmos a cozinha para não gastarmos tanto com comida, foi ela quem tentou abaixar o preço da nossa diária, foi ela quem sempre foi doce conosco, foi ela a cubana mais bem tratada e bonita que eu vi.

Depois de algumas dicas, o passeio.

"Lazaro, vamos a salir. volvemos más tarde, ok?"


 
 

As pessoas andando rápido sem muito olhar para os lados denunciava que poucos eram os turistas de primeira viagem naquele corredor. O cheiro peculiar e seco, a falta de lojinhas no aeroporto e de qualquer adorno nas paredes
mostrava que seriam dias de simplicidade.

As malas demoraram muito para aparecer na esteira e o nervosismo conseguia apertar ainda mais. Os policiais com seus cachorros num canto da sala denunciava que entrar naquele país seria muito difícil se portássemos algo que não os agradassem.

Duas pesadas malas (agradeço a quem teve a brilhante idéia de colocar rodinhas nessas malas de viagem) e um espanhol patético nos acompanharam ao guiche. Cubano mal encarado não gostou do meu inglês. Perguntou o que eu fazia ali, quanto tempo ficaria e até onde me hospedaria. Perguntas freqüentes mas assustadoras quando somos olhados no fundo dos olhos por quem só quer uma brecha para te brecar.

Foi nessa hora que a vergonha teve que ser esquecida e o portunhol ser aceito como língua oficial.

Foi aí que recebi um sorriso e finalmente o primeiro "Bienvenida a Cuba" sincero.

 


    Cuba é muito mais do que uma ilha caribenha, é muito mais do que a ilha de Fidel e Raul Castro e, principalmente, é muito mais do que um país nomeado como socialista. Após duas viagens ao pequenino país, Silvia Song tenta relatar um pouco sobre o que viu e o que experimentou em meio àquela cultura. 

    E-mail para contato: song.silvia@gmail.com

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